Dos Labirintos Físicos aos Emocionais: A Evolução da Nossa Relação com a Tela

Dos Labirintos Físicos aos Emocionais: A Evolução da Nossa Relação com a Tela

O cinema é, na sua essência, a arte de buscar uma saída. A gente paga o ingresso para se perder em cenários caóticos e, no processo, tentar encontrar respostas junto com os personagens. Se você parar para analisar as grandes franquias de Hollywood da última década, o foco quase sempre foi a sobrevivência crua e o desespero juvenil. Pega a franquia “Maze Runner” como exemplo perfeito disso. A adaptação da trilogia principal dos livros do James Dashner virou uma espécie de rito de passagem para a geração que consumia distopias freneticamente. Comandada do início ao fim pelo diretor Wes Ball e roteirizada por T.S. Nowlin, a série jogou Dylan O’Brien, Kaya Scodelario, Thomas Brodie-Sangster, Ki Hong Lee, Dexter Darden e a veterana Patricia Clarkson em um dos cenários mais claustrofóbicos e hostis do entretenimento.

A maratona dessa galera começa com Maze Runner: Correr ou Morrer, lançado em 2014. A trama te joga direto no escuro: Thomas (vivido pelo Dylan) acorda do nada em um elevador, sem fazer ideia de quem é, e dá de cara com dezenas de garotos presos no centro de um labirinto colossal. É o puro suco da ação focada em juntar pistas no ambiente para tentar dar o fora dali. A ordem cronológica dos filmes, inclusive, é bizarramente simples e não exige malabarismos temporais, basta seguir a linha de lançamento. Mal a poeira baixa do primeiro filme, a história engata imediatamente em Maze Runner: Prova de Fogo (2015). A sensação de alívio por terem escapado do labirinto não dura meia hora, porque a molecada agora precisa cruzar um deserto pós-apocalíptico infernal cheio de obstáculos mortais, fugindo dos soldados de uma organização com intenções pra lá de sombrias.

Hoje em dia, os dois primeiros longas estão mofando no catálogo do Disney+, mas quem acompanhou na época lembra que o fechamento dessa correria toda demorou mais que o esperado. Maze Runner: A Cura Mortal chegou aos cinemas só em 2018, e o hiato teve um motivo tenso: o Dylan sofreu um acidente feio no set de gravação. A produção precisou engatar a marcha à ré até o cara se recuperar 100%. Quando o terceiro e último filme finalmente estreou, entregou o embate final de Thomas contra os planos catastróficos da organização para tentar achar a cura de um vírus letal. E um detalhe curioso para os puristas da franquia: Dashner chegou a escrever dois livros que servem de prequela para essa loucura toda, The Kill Order e The Fever Code, mas os estúdios deixaram isso na gaveta. Nunca chegaram perto das telonas.

Mas a verdade é que o público cresce, amadurece, e o desespero de correr contra o fim do mundo aos poucos cede espaço para angústias muito mais silenciosas. Enquanto Hollywood continua espremendo suas franquias de ação até a última gota, a indústria japonesa de animação está sentindo o cheiro de uma mudança de fase e apostando pesado em obras intimistas. O mercado está faminto por dramas maduros, e o anúncio recente da Kyoto Animation caiu como uma luva nesse cenário. O estúdio marcou para 2027 a estreia do longa-metragem The Credits Roll Into the Sea (baseado no aclamado mangá Umi ga Hashiru Endroll, de John Tarachine). Saem os adolescentes correndo pela vida, entra Umiko Chino, uma viúva de 65 anos. O contraste temático é gritante, mas o apelo emocional é avassalador.

A obra não é pouca coisa. O mangá abocanhou o primeiro lugar na categoria feminina do guia Kono Manga ga Sugoi! de 2022, cravou indicações na 27ª e 29ª edições do prêmio cultural Tezuka Osamu e bateu a marca de um milhão de cópias em circulação até meados de julho de 2025. Para comandar a adaptação, a KyoAni puxou Taichi Ishidate, o mesmo cara por trás de petardos visuais como Violet Evergarden e Beyond the Boundary. O teaser, que pingou na internet agora em 10 de maio de 2026 trazendo a chamada “2027 Roadshow”, já entrega o que o estúdio sabe fazer de melhor: cenários absurdamente detalhados, cores vibrantes e uma imersão muito forte na visão em primeira pessoa. No Japão, a Shochiku vai distribuir o filme, embora o lançamento internacional por streaming ou cinemas ainda esteja meio nebuloso.

O que realmente fascina na história da dona Umiko é como ela redescobre o brilho nos olhos pelo cinema através de um estudante de audiovisual muito mais novo chamado Kai. A grande sacada é que nenhum dos dois está tão interessado na obra projetada na tela; a pira deles é observar como a plateia reage ao filme. Essa epifania bate tão fundo nela que, lidando com o luto e o isolamento da velhice, a mulher decide voltar a estudar e entra numa escola de cinema para criar suas próprias narrativas. Colocar uma mulher idosa como protagonista é uma raridade absurda no circuito comercial de animes, mas a Kyoto Animation parece saber exatamente o que está fazendo em sua reestruturação pós-2019, focando em densidade com projetos como Violet Evergarden: The Movie (2020) e a série CITY The Animation (2025). Com o caminho pavimentado pelo sucesso de adaptações reflexivas como Look Back, The Colors Within e The World is Dancing, The Credits Roll Into the Sea já nasce com pinta de que vai dominar o circuito de prestígio fora das engrenagens das grandes franquias de ação. No fim das contas, seja invadindo instalações militares atrás de uma cura biológica ou tentando capturar a lágrima de um espectador no escurinho do cinema, a essência é sempre encontrar um sentido próprio antes que os créditos comecem a subir.